Uma catástrofe, para um, por favor!

Vagner Felipe Kühn

            Um estampido marcava o horário do velho relógio de parede, eram 19 horas. Um aceno com a cabeça do chefe de cozinha, e o garçom abriu a porta do restaurante. Esse não era um estabelecimento comum, mas o resultado de muitos anos de dedicação intensa de um proprietário que não se dedicava apenas às finanças. Ele também era o regente daquela caótica orquestra que fazia música para o paladar. Vamos chamá-lo de Oliver.

            O restaurante não era um sucesso financeiro justamente porque Oliver não priorizava as finanças, mas as refeições. Em cada preparo, não admitia nada menos do que o melhor, mesmo que aquilo lhe custasse parte expressiva da margem de lucro.

            Mesmo assim, por preparar o que havia de melhor, seus preços não eram necessariamente baratos. Ele cozinhava, portanto, para um grupo relativamente pequeno na cidade. Dependia das boas e gratuitas críticas dos especialistas da cidade. Qualquer ponto abaixo do sucesso era um sério risco ao futuro de seu negócio.

           Essa avaliação, que poderia vir em uma semana qualquer, o atormentava. Enquanto comandava a cozinha, espiava pela janela redonda da porta, tentando identificar alguém com cara de crítico gastronômico. Aquilo o consumia e roubava parte do sal de sua vida. Não conseguia compreender como a vida poderia ter levado ele até aquele ponto para depois ser lançado ao agonizante fracasso.

            Oliver nunca se deu conta, teve sua vida moldada pela ansiedade. Esse sentimento o perseguiu desde a escola, quando temia que uma reprovação consumisse seu futuro, ou quando corria até sua casa, por achar que um valentão poderia, por uma razão só construída em sua mente, querer briga. Jamais pensou que sua própria dedicação, muito acima dos padrões mais exigentes, que o fazia ultrapassar os limites das finanças, era apimentada por um medo absurdo de falhar. Vida? Não, para um ansioso o mais importante é coçar a coceira irresistível que o próximo problema inadiável representa.

            Lá está ele, só pode ser! Um senhor com gravata borboleta e uma pasta marrom entrou no restaurante. Pediu o cardápio ao mesmo tempo em que empunhou um bloco de notas. Oliver dispensou os ajudantes, faria todo o processo de preparo do prato que aquele homem roliço pedisse.

            Feito o pedido, Oliver começou a prepará-lo. Ele sentia sua boca seca e a sensação de falta de energia. Seu coração parecia bombear mais sangue do que o corpo poderia suportar. Suas mãos, ora gelavam, ora pareciam verter toda a água do mundo. Por um momento, Oliver esqueceu-se da receita que preparava com absurda frequência. Não pediu aos outros funcionários ou consultou seu surrado livro de anotações. Não havia tempo! Repetia isso como um mantra para si mesmo.

            Finalmente, estava pronto o prato! Enfim, poderia livrar-se daquela angústia que o consumia. Tocou a sineta para o garçom, que tomou a bandeja para levá-la ao prestigiado destino. Mas o alívio, tão prazeroso quanto uma droga, não durou muito. Um mal-estar subiu-lhe da ponta dos pés até a parte de traz da nuca, alojando-se em uma intensa dor de cabeça. Tinha ele esquecido o sal? Fazia isso de modo tão intuitivo e automático que poderia ter esquecido. Vasculhava sua mente e nenhuma memória lhe retornava com tal informação.   

            Sim, sentia que sua falha o desmascararia. E nem poderia culpar um de seus funcionários, pois tinha preparado tudo sozinho. Viu, então, uma vassoura no canto da parede. Pensava em uma desculpa para atingir aquele prato, mas nada lhe ocorria. O mundo parecia girar, e os pensamentos pareciam um grande grupo de palhaços tentando entrar em um fusca.

            O senhor gordinho comeu sem fazer objeções, mas a cada bocada fazia um intervalo para as anotações. Oliver jamais soube se aquele era ou não um crítico gastronômico, ou se realmente tinha esquecido o sal da comida. Sobreviveu ao episódio, jurou que não iria sentir aquilo novamente, que levaria a vida de modo diferente. Todavia, a lição sobre ansiedade durou apenas até o próximo grande evento catastrófico.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Uma catástrofe, para um, por favor!. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 28 setembro 2018. Disponível em: https://www.preceptorkuhn.com.br/uma-catastrofe-para-um-por-favor