Vinicius de Moraes e a transubstanciação do amor

            Enquanto rumava para a Inglaterra, em 1938, o poeta Vinicius de Moraes escreveu o “Soneto de Separação”, um dos maiores manifestos sobre o amor. Na verdade, um dos raros escritos a tratar de um evento pouco comentado das relações de amor, o término. Transcrevo ao leitor o poema, pois sempre pode existir alguém que tenha sido privado pelo mundo, injustamente, de algo tão precioso:

 

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

 E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama 

E da paixão fez-se o pressentimento 

E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente 

Fez-se de triste o que se fez amante 

E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante

 Fez-se da vida uma aventura errante

 De repente, não mais que de repente.

            Na doutrina católica, há um termo que designa a mudança de substância: a transubstanciação. Trata-se de um conceito elaborado com base no Novo Testamento para explicar como o pão e o vinho se transformam em corpo e sangue de Cristo, internamente, sem que a aparência se altere. Claro, à exceção de alguns poucos casos onde a consagração realmente transformou o pão e o vinho em corpo e sangue, como no Milagre Eucarístico de Lanciano, ocorrido no Século VIII, compreende-se como um fenômeno de mudança não aparente.

            Com o perdão do uso do vocábulo de origem religiosa, é possível dizer que Vinicius de Moraes trata da transubstanciação de uma relação de amor em uma relação que não é mais de amor. De repente, sem aviso, embora a realidade material continue a mesma, há uma mudança abrupta de significados.

            De modo algum se pretende aqui invocar a desconfiança sobre o amor. Não há dúvidas de que ele existe e vai continuar existindo. A constatação da existência da morte não nos permite deduzir que não houve vida. Por outro lado, devemos estar atentos a essa mudança repentina de estado das relações, para que um sentimento tão forte não se transforme em seu oposto.

            Sim, de repente, não mais que de repente, é possível que sejamos surpreendidos pela escolha de quem antes jurava a eternidade. Uma opção que pode ser feita verbalmente, às claras, mas também pode ser revelada por segredos descobertos, que nem muito bem guardados eram. E chego aqui para dizer que os seres humanos deveriam ser educados para canalizar as emoções de um coração partido para longe da violência e de outras muitas formas de conflito. Não raro, as músicas brasileiras de maior sucesso apenas aconselham o caminho da bebida, ou outra espécie de fuga.

            Todos os dias chegam até mim muitas histórias de pessoas inteligentes que entram em embates medíocres devido ao término de relações afetivas. Em alguns casos, isso acarreta apenas perda de energia e tempo; em outros casos, o interesse de crianças inocentes é atropelado simplesmente porque pessoas adultas não conseguem suportar a dor da rejeição ou a surpresa da traição. O traído não deve se sentir menosprezado, pois o ser humano tem, não raro, a capacidade de fazer escolhas absurdas, por ter um gosto, digamos, muito peculiar.

            Como se portar diante da transubstanciação do amor? Tristeza, ódio, fúria, dentre outros sentimentos, sempre tentarão ditar nosso comportamento, nos estágios iniciais. Isso é absolutamente normal. A questão é se deixaremos esses sentimentos, originários de atitudes de outra pessoa, definirem quem nós somos. Quando agimos e não nos deixamos apenas reagir, somos livres, pois quebramos a cadeia dos acontecimentos e nos colocamos no protagonismo de nossa vida. Independentes para recitar outro amor, “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Mas esse é o “Soneto de Fidelidade” de Vinicius, assunto para outro texto.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Vinicius de Moraes e a transubstanciação do amor Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 25 maio 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591