William Shakespeare e os incêndios

            Qualquer um poderia perceber que um casal se formaria ali. Não darei nomes, mas farei a narrativa. Como qualquer pessoa que fala sobre a vida alheia no interior, peço ao leitor total segredo. E, caso lhe ocorra contar a alguém, peça ao ouvinte que jure também falar sobre isto em absoluto sigilo.

            A mulher era alta, loira e tinha olhos azuis da cor do céu. O cabelo era cortado por ela mesma, mas parecia elaborado para um desfile. Vestia-se sempre de modo despojado, embora fosse impossível não notá-la. Um olhar de menina, mesmo depois dos trinta anos, faziam lembrar aqueles primeiros amores que temos quando criança. Ela tem um grande dom para as artes e é figura conhecida nos meios artísticos do centro do País. Mas ela não é atriz, trabalha com a produção de programas de televisão, de teatro e de cinema. Seu sotaque porto-alegrense é inconfundível e pode ser intuído à distância, porque ela sempre carrega sua mateira de alça longa, não importa onde esteja.

            O homem não ficava distante. Olhos negros, cabelo negro e um rosto quadrado. A barba mais bem aparada da qual se tem notícia, e uma pele branca que revelava as longas horas em ambientes fechados. Com um extremo bom gosto para gravatas, parecia não ter problemas para se vestir todos os dias com ternos que pareciam saídos dos romances de F. Scott Fitzgerald. Mas sua origem era humilde, poucos sabiam que o gosto pelos ternos bem cortados era herança do tempo em que ajudava seu avô, um famoso alfaiate em Curitiba, nos anos 1980. Tal como os ternos, o cargo importante no Judiciário parecia ter sido feito sob medida.

            Quis o destino que um jantar com amigos em comum os colocassem em um mesmo ambiente. Ela, depois de muita insistência de uma amiga, comprou uma roupa nova, fez as unhas e se deixou compor por um penteado clássico. Ele, pelo contrário, deixou a formalidade das roupas dos dias de trabalho e vestiu uma velha calça jeans desbotada, quase esquecida em seu armário.

            Jantares são muito bons para conhecer pessoas novas, porque os amigos em comum avalizam a credibilidade dos participantes. Para esse casal, sequer foi necessário esse pressuposto, porque uma troca de sorrisos na entrada do condomínio onde os amigos estavam reunidos já os havia aproximado irremediavelmente. Chegaram conversando no salão de festas, sem se darem conta de que estavam indo para o mesmo compromisso.

            Alguns dirão que encontros como esse ocorrem por atração física, que o amor não passa de um estímulo químico. Certamente, contudo, essas pessoas mudariam de ideia se vissem aquelas duas pessoas juntas. Não sabiam nada um do outro, mas pareciam feitos um para o outro. E, mesmo de mundos diversos, uma sintonia percorreu temas como música, viagens, culinária, cinema, entre outros. Nem sequer um beijo foi dado, mas, depois de três horas de jantar, ela, que jamais se pensou na condição de uma figura feminina tradicional, imaginava-se casando em uma igreja e tendo um filho com o cabelo penteado para o lado como o dele. Ele, que jamais pensou em abdicar de seus deveres, imaginou que entregaria seu cargo, venderia todas as suas coisas e andaria pelo mundo apenas com ela e com uma mochila velha, carregando apenas o imprescindível para alguém viver.

            Infelizmente, o mundo não é simples. E somente o “Soneto de Separação” de Vinicius de Moraes poderia ilustrar algo de tão difícil explicação: “De repente, não mais que de repente / Fez-se de triste o que se fez amante”. Um assunto peculiar surgiu à mesa: o julgamento de Lula.

            Como um pavão que eriça suas penas por um instinto incontrolável, os dois entraram no assunto. No início, com aquelas provocações quase de brincadeira; depois, com todas as tintas escuras de uma discussão acalorada. Eu, que via de longe o que aquilo poderia ser para pessoas tão especiais, percebi desmoronar a afinidade quando ambos relatavam suas perspectivas e os contextos profissionais de onde advinham. Descobriram-se Montesco e Capuleto. Compreendi, naquele dia, a expressão de William Shakespeare, em “Romeu e Julieta”: “Um fogo devora um outro fogo”.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. William Shakespeare e os incêndios. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 4, 26 janeiro 2018. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591